Brasil

Bets tiram dos pobres para engordar os cofres dos ricos

Texto: Semana On

Com promessas de enriquecimento instantâneo e acessadas com poucos toques no celular, as plataformas de apostas esportivas — as chamadas bets — transformaram-se num fenômeno nacional. Mas por trás dos jingles sedutores, dos patrocínios milionários e da falsa sensação de controle, escondem-se estatísticas alarmantes: dívidas impagáveis, famílias desestruturadas, evasão escolar e até suicídios. Com a conivência do Estado e a força de um lobby político robusto, o que se consolida é uma máquina de moer gente — e de transferir renda dos pobres para os ricos.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens adiaram a entrada na faculdade por terem perdido dinheiro com apostas online. É um dado brutal, mas não surpreendente: o vício em jogo tem efeitos devastadores, que vão da evasão educacional à destruição de núcleos familiares. O que deveria soar como um alerta de calamidade virou, para muitos gestores públicos e parlamentares, apenas mais um dado irrelevante diante do apetite tributário.

Em 2023, o governo Lula decidiu regulamentar as apostas esportivas no Brasil, abrindo as portas para a operação legal de empresas que, até então, atuavam numa espécie de limbo jurídico. O discurso oficial se baseava na arrecadação de impostos: a estimativa inicial era de que o setor poderia render até R$ 12 bilhões por ano em tributos. O problema é que esse número, embora vultoso, não cobre sequer os custos sociais e de saúde pública associados à explosão do vício em apostas — especialmente num país em que o SUS já opera sob extrema pressão, enfrentando falta de recursos para atendimentos psiquiátricos e programas de saúde mental.

Diante do cenário, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, propôs em 2024 um aumento da alíquota do GGR (Gross Gaming Revenue) — que calcula a diferença entre os valores apostados e os prêmios pagos — de 12% para 18%. A reação do setor foi imediata: ameaças veladas de desinvestimento e lobby contra o projeto no Congresso. Mas, para especialistas e estudiosos do impacto social dos jogos, a medida foi tímida.

“O jogo compulsivo tem impacto equivalente ao do uso abusivo de drogas como álcool e cocaína. O sofrimento da família é imenso, e o custo para o sistema de saúde é muito elevado”, alerta o psiquiatra Hermano Tavares, coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, em entrevista à BBC Brasil. Tavares defende políticas públicas mais firmes, incluindo campanhas de conscientização, taxação robusta e restrições publicitárias. Medidas que, até agora, não saíram do papel.

Nos últimos anos, as bets avançaram em terreno fértil. A ausência de regulação efetiva permitiu que clubes de futebol, celebridades e influenciadores digitais se tornassem garotos-propaganda de plataformas estrangeiras, cujos lucros se concentram nas mãos de grupos multinacionais. No Brasil, o usuário médio das apostas é um homem jovem, de classe média baixa, com baixa escolaridade e alto grau de exposição às redes sociais, segundo dados da pesquisa Datafolha de 2023.

É essa população — já vulnerável — que sustenta o lucro bilionário das casas de apostas. A ilusão vendida é a de uma virada rápida de vida. Mas a realidade é a estatística: mais de 95% dos apostadores perdem dinheiro, segundo estudo publicado pela Universidade de Oxford em 2021, sobre padrões comportamentais em plataformas de apostas.

Essa combinação de promessa e prejuízo tem alimentado um ciclo de endividamento, desespero e violência doméstica. Em estados como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, delegacias da mulher e centros de assistência social já relatam aumento de casos ligados ao vício em apostas, segundo reportagens recentes da Agência Pública e do UOL.

Enquanto isso, a publicidade segue livre, sem exigência de alertas, limites de horário ou controle de audiência. Em países como o Reino Unido e a Itália, anúncios de apostas foram fortemente restringidos após o aumento do número de casos de vício entre adolescentes. No Brasil, o projeto que regula a propaganda de apostas ainda patina no Congresso, travado por parlamentares que contam com o apoio financeiro direto ou indireto do setor.

Por isso, é ingênuo atribuir a responsabilidade apenas às empresas. O Estado brasileiro falhou — e segue falhando — ao se omitir diante de um problema de proporções epidêmicas. Regular a atividade, como foi feito, sem planejamento, fiscalização ou políticas públicas de mitigação dos danos, foi como liberar o álcool e esquecer de investir em tratamento para o alcoolismo.

O sistema de apostas online é um jogo de soma negativa para os mais pobres. E a equação é simples: quanto mais alguém perde, mais a casa ganha. E a casa, como se sabe, sempre ganha.

Bets sabotam o futuro

O acesso à educação superior, um dos pilares do desenvolvimento social e econômico de qualquer país, está sendo sistematicamente sabotado no Brasil — e o adversário da vez atende pelo nome de bets. A promessa de enriquecimento rápido vendida pelas casas de apostas online não só mina a estabilidade financeira dos jovens brasileiros, como também está afastando centenas de milhares deles das universidades.

Segundo pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), realizada em parceria com a consultoria Educa Insights, 34% dos jovens brasileiros entre 18 e 35 anos adiaram o ingresso em cursos de graduação em 2025 por causa de gastos com apostas online, incluindo o popular “jogo do tigrinho”. A sondagem ouviu 11.762 pessoas entre os dias 20 e 24 de março de 2025 e expõe, com dados inéditos, a relação direta entre o vício em jogos e a evasão educacional.

A situação é ainda mais crítica nas regiões mais vulneráveis: 44% dos jovens do Nordeste e 41% dos jovens do Sudeste afirmaram que postergaram seus estudos por conta das apostas. Entre as classes D e E, onde a renda familiar média é de apenas R$ 1.000, o índice sobe para 43%, revelando o ciclo perverso no qual os mais pobres, em busca de uma saída rápida para a pobreza, acabam presos em uma armadilha financeira que compromete o futuro.

“A crescente popularização das bets impacta justamente o público-alvo da educação superior: brasileiros de 18 a 35 anos”, afirma Paulo Chanan, diretor-geral da Abmes. Para ele, o problema extrapola a captação de novos alunos: já afeta também a permanência dos que conseguiram ingressar no ensino superior. 14% dos matriculados afirmaram que já atrasaram o pagamento da mensalidade ou tiveram de trancar a faculdade por causa de apostas, sendo que no Nordeste o percentual atinge 17%.

As instituições de ensino superior projetam que, caso a tendência se mantenha, 986 mil estudantes em potencial podem ficar de fora da universidade por conta do comprometimento da renda com as apostas. E o problema não para por aí: 34% dos jovens declararam que, em 2026, precisarão parar de jogar para tentar voltar aos estudos.

O levantamento ainda mostra que 28% dos jovens já deixaram de sair com amigos ou frequentar bares para apostar, e 24% abandonaram academias ou atividades físicas pelo mesmo motivo. Ou seja, o impacto das bets extrapola o universo educacional: interfere na saúde física, mental e nas relações sociais dos jovens — muitas vezes de forma silenciosa.

Apesar dos dados alarmantes, a resposta política tem sido lenta e tímida. O Senado chegou a instalar uma CPI das Bets para investigar o impacto das plataformas no orçamento das famílias e na saúde mental dos brasileiros. A relatora da comissão, senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), chegou a pedir o indiciamento de influenciadores digitais como Virgínia Fonseca, acusados de promover o jogo sem responsabilidade.
No entanto, o relatório final foi rejeitado, e a CPI terminou sem encaminhamentos práticos.

“Ao mesmo tempo em que observamos um crescimento expressivo do vício entre a população mais pobre, chama a atenção o número crescente de jovens com acesso à informação e educação que também estão sucumbindo ao jogo”, afirmou Soraya em entrevista ao UOL, em 2025.

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa o setor, criticou o levantamento da Abmes e defendeu o “compromisso com o jogo responsável”. Em nota, a entidade afirmou: “Não há relação direta entre o hábito de jogar de duas a três vezes por semana e a desistência no ingresso ou na continuidade de um curso de Ensino Superior, como sugerem a pesquisa e a reportagem”. A ANJL argumenta ainda que um mercado regulamentado é a melhor forma de coibir abusos.

Mas os números contam outra história. Segundo a mesma pesquisa, 45,3% dos jovens disseram ter gastado mais de R$ 350 com apostas só em 2025, frente a 30,8% em 2024. E os acessos às plataformas de apostas se multiplicam: as bets já são o segundo maior destino da internet no Brasil, superando sites como YouTube e WhatsApp — ficando atrás apenas do Google.

O vácuo regulatório, a propaganda agressiva e a ausência de educação financeira básica criam o terreno perfeito para o crescimento desenfreado de um vício silencioso. O projeto de legalização de cassinos, jogo do bicho e bingos, em tramitação no Senado, não inclui apostas online, embora estas estejam acessíveis 24 horas por dia, em todos os dispositivos móveis do país. “Considero o cassino físico menos prejudicial do que o online, que está dentro da casa das pessoas”, declarou uma senadora da bancada evangélica durante o debate.

Enquanto o Congresso adia decisões e o Executivo hesita em adotar políticas públicas de enfrentamento, a juventude brasileira assiste ao seu futuro ser corroído por um sistema que transforma lazer em armadilha — e sonho em dívida.

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