Fonte: Jornal Cenário MS
Com base em investigação do Jornal Cenário MS, o Jornal Produção detalha o padrão de pagamentos idênticos e manobras orçamentárias de última hora que drenaram os cofres públicos no apagar das luzes do ano legislativo.
Em um município de pouco mais de 7 mil habitantes, as cifras movimentadas pela Câmara Municipal em 2025 revelam uma realidade paralela aos desafios da população local. Dados levantados originalmente pelo Jornal Cenário MS e analisados pelo Jornal Produção mostram que o Legislativo empenhou, ao longo de 12 meses, o montante de R$ 892.177,27 para custear 333 diárias.
O que emerge da análise de centenas de notas de empenho não é apenas um gasto elevado, mas um padrão sistemático que sugere o uso de dinheiro público para inflar os rendimentos de parlamentares e servidores de forma fixa.
O Padrão dos R$ 6.715,20: Viagem ou “Mensalinho”?
Um dos pontos mais críticos da denúncia é a repetição milimétrica de valores. Diferente do que ocorre em gestões transparentes — onde o valor da diária varia conforme o destino e a duração — em Santa Rita do Pardo as cifras funcionam com precisão de relógio.
Parlamentares como Toninho Colibri e Ruy Castelo Branco receberam o valor exato de R$ 6.715,20 repetidamente durante quase todos os meses do ano. A suspeita é que a verba indenizatória tenha sido desvirtuada para atuar como um “complemento salarial” fixo, burlando o teto constitucional de remuneração.
Manobra orçamentária e o “Dia D” de Dezembro
A pressa para liquidar o orçamento antes do recesso de fim de ano gerou movimentos atípicos. No último dia 08 de dezembro, o sistema financeiro registrou o que pode ser chamado de “Dia D” de saques: seis vereadores tiveram liberados, simultaneamente, empenhos idênticos de R$ 6.715,20 para um seminário em Brasília.
Para viabilizar essa injeção de verba nas contas dos parlamentares, o Legislativo utilizou o Decreto nº 226/2025, retirando dinheiro que seria destinado a contratos de prestação de serviços para cobrir as despesas de última hora com viagens.
Bonança no setor jurídico
A elite dos servidores comissionados também foi contemplada, especialmente no segundo semestre. O assessor jurídico, Sidney Moreira, viu seus recebimentos saltarem de valores oscilantes para uma cifra fixa de R$ 5.316,20 mensais a partir de agosto. Sozinho, o advogado acumulou R$ 45.467,50 em diárias em 2025, um aumento expressivo em relação ao início do ano.
O outro lado
O Jornal Produção entrou em contato com o vereador Cristiano João Marques (Boquinha) para que ele pudesse se manifestar sobre os valores recebidos e a natureza das diárias registradas em seu nome. No entanto, até o fechamento desta matéria, não obtivemos nenhuma resposta. O espaço segue aberto caso o parlamentar ou a Câmara Municipal decidam se manifestar.
📊 Ranking dos Gastos (2025)
Confira o total acumulado por cada parlamentar ao longo do ano:
Vereadores (Total: R$ 623.254,49)
• Antonio Coral Costa (Toninho Colibri): R$ 71.349,00
• Ruy Fernandes Castelo Branco: R$ 71.349,00
• Edmilson Bezerra: R$ 70.719,45
• Leudeiane da Silva Lopes (Leu Lopes): R$ 70.719,45
• Luiz Carlos do Prado Rodrigues (Kbcinha): R$ 69.460,35
• Silmara de Souza Braga: R$ 67.781,55
• Tereza de Jesus da Silva Sousa: R$ 67.781,55
• José Messias de Souza: R$ 67.152,00
• Cristiano João Marques (Boquinha): R$ 66.942,14
Servidores (Total: R$ 268.922,78)
• Sidney Moreira de Souza Junior (Assessor Jurídico): R$ 45.467,50
• Roanderson da Silva Queiróz (Diretor Financeiro): R$ 41.375,43
• Juliano da Rocha Muchão (Controlador Geral): R$ 40.501,05
• Alaor da Silva Miranda (Assessor Legislativo): R$ 33.506,05
• Maysa Emanuelle Avelino Bernardino (Auxiliar Administrativo): R$ 31.477,50
• Kátia de Souza Moreno Amorin (Chefe de Administração): R$ 31.197,70
• Denise Vieira Mussopapo de Jesus (Auxiliar Administrativo): R$ 25.182,00
• Ana Paula Matis de Freitas (Assessora Legislativa): R$ 12.591,00
• Adriana Paulino de Souza Mussopapo (Técnica Legislativa): R$ 6.925,05
• Assistente Parlamentar: R$ 349,75
• Assistente Parlamentar: R$ 349,75
Ao Cenário MS, a Câmara negou irregularidades
Procurada pela reportagem do Jornal Cenário MS, a Presidência da Câmara Municipal emitiu Nota Oficial rebatendo os apontamentos.
Sobre o “Dia D” e o Aporte de Dezembro: O presidente Cristiano João Marques afirmou que a suplementação orçamentária é legal e visa custear agendas para a “captação de recursos oriundos de emendas parlamentares”. Segundo a nota, essas tratativas exigem “presença institucional e atuação contínua”, mesmo no período que antecede o recesso.
Sobre os gastos técnicos: Em relação aos altos valores pagos ao jurídico e financeiro, a Câmara justificou a necessidade de “capacitações e treinamentos”, citando a adequação à Nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021) como motivador dos cursos e viagens. A nota reforça que cada diária é analisada individualmente.
O “Trunfo” da Devolução: Para contrapor os números da gastança, a Casa anunciou a devolução antecipada de R$ 1.200.000,00 (um milhão e duzentos mil reais) aos cofres da Prefeitura, sugerindo que o recurso — oriundo da sobra do duodécimo — seja usado para pagar abono aos servidores municipais.



